terça-feira, 3 de Novembro de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. V

REMAR CONTRA A MARÉ OU SEGUIR A MANADA

O homem é um ser social, ensinaram-se na escola, nasce, cresce, reproduz [ou não] e morre.
Lembro-me que tive que fazer uma composição sobre o assunto, cujo tema era: o homem deve ou não viver sozinho e isolado dos outros. É claro que eu disse não, e, entusiasmado, lá me pus discorrer, explicando as razões por que achava que o homem não devia viver sozinho. Eu sei que ainda me faltam muitos anos para poder usar legitimamente a frase: se eu soubesse na altura o que sei agora. Mas, se eu soubesse o que sei, se calhar não respondia que o homem deve viver com os outros… Não!, provavelmente não o faria, porque se o fizesse levava um zero e chumbava à disciplina. Educação Social, chamava-se ela. Era uma disciplina que viera para substituir uma outra de cunho político-partidário: Formação Militante. Ambas tinham como objectivo criar homens capazes de se integrarem na sociedade, mas eu, pessoalmente, não aprendi nada com elas, porque as únicas vezes que falava das coisas que me ensinaram eram nas aulas com o professor ou com os colegas quando a prova se aproximava.
O homem é ser social, nasce dentro de uma sociedade e é ensinado pelas regras da dita, e o ensino é de tal forma, que quando não entramos em choque com ele logo cedo acabámos por aceitá-lo quase como um dogma e nunca rechaçamos. Hoje, eu podia ter respondido que o homem deve viver isolado dos outros e justificado que os outros, os antecedentes, são quem corrompe o homem com os seus ensinos e as suas formas de viver. Voltaire era um homem asocial, na medida em que não aceitava as tretas da sua época, era um homem que viveu sozinho. O homem não faria mal a ninguém se não fosse ensinado a fazer mal, a copiar o que vê, ou tentar não ficar para trás na grande corrida da vida, e como o jogo não é leal, ele também não sente a obrigação se o ser.

Os homens que são diferentes, que não querem ser como os demais, nunca triunfam. Cristo andava a pé, arrastando consigo uma multidão de desgraçados, supostamente com sandálias gastas, todo suado e sujo, embora as gravuras o mostrem sempre com um branco imaculado, mas quem estaria assim sempre limpo andando no deserto os quilómetros que ele andava? Se nem tinham água para lavar as mãos, os seus discípulos chegando a comer com elas sujas, onde sairia com ela para tomar banho? Não admira que o mandassem crucificar! Um maltrapilho fedorento a dizer-nos que somos sujos? Olá, olé! Cristo era diferente, resultado: morte na cruz; Sócrates era diferente, resultado: bebeu cicuta; Galileu era diferente, resultado: então, por que não ser igual?; Rambo era diferente, resultado: em todos os três filmes nunca teve paz. Para quê ser diferente se todo o mundo é igual?

Somos julgados por sermos diferentes; enjaulamos pessoas porque não pensam igual a nós, enjaulamo-las porque não ouvimos as vozes que ouvem; negamos oportunidades às pessoas porque não têm um bom apelido ou um bom padrinho; despedimos funcionários porque não concordaram connosco; não encontramos trabalho porque não fomos à entrevista de gravata (pelo menos foi isso que li num livro de Dale Carnegie); resumindo: temos de ser o que querem que sejamos, se não o formos, emularemos Camões: miseráveis vivos e talvez glorificados depois de mortos, e isso se deixarmos alguma coisa de valor. Mas quantos têm a oportunidade ou a capacidade de deixar coisas de valor?

Geralmente os que deixam coisa de valor são aqueles que não se deixam levar pela maré, são os que remam no sentido contrário, às vezes são chamados de revolucionários, outras de visionistas, algumas de artistas e algumas outras de loucos. Mas na sua maioria só vem o reconhecimento quando já não precisam dele. E o que se quer é viver, aqui, enquanto vivos, o que vem depois da morte fica fora do nosso conhecimento. Então o que devemos fazer para vivermos em paz, seguir a manada ou fazer um caminho solitário? Se formos pela primeira, corremos o risco de ser do tipo que Gabriel o Pensador acusou: pessoas como eu, conheço mais de mil; se optarmos pela segunda ou acabamos hippies ou internados num manicómio. Será a melhor saída a hipocrisia, aceitar o que convém quando convém, mesmo que isso vá contra o nosso princípio? Por outras palavras, será que devemos ser todos maquiavélicos, adequando-nos e adequando os meios, não tendo princípios e apenas olhando para os fins?

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. IV


HIIPOCRITAS OU BONS SAMARITANOS

 

A forma de pensar do Séc. XX é muito pesado e obscuro, mesmo para os praticantes de magia negra (bem, considerem isto como uma tentativa de fazer piada).

Mas a verdade é que quando ninguém confia em ninguém e quando é isso que toda a gente aconselha a toda a gente: não confies em ninguém… mas em mim podes (claro, em mim, porque eu só faço parte do mundo, mas sou diferente, não sou como os restantes.), então vemos como as coisas não andam bem por aqui e como a hipocrisia é tão grande quão absurda. 

Os hipócritas, não há continente onde caibam, por isso espalharam-se pelo mundo inteiro e são mais numerosos que os restantes homens, e portanto, passaram eles a ser normais. (Usei o pronome eles não porque me considero fora do grupo, mas porque gosto de me acreditar fora). A sociedade está poluída de hipocrisia e a melhor forma de disfarçar é repetir sabiamente na estupidez: faz o que digo e não o que faço. É assim que se pretende dar uma orientação?

Li livros e relatos escritos desde séculos antes de Cristo, a Bíblia Sagrada, Epopeia de Gilgamés, Odisseia, Eneidas, passando pelos séculos mais recentes até ao nosso, e de facto o que percebi é que o homem só foi mudando de vestimentas e de materiais, acessórios, mas que a essência permanece igual. Entretanto, não deixa de ser relevante como até a uns séculos antes cavalheiros davam a sua palavra e mantinham-na, não deixa de ser tocante (absurdo e estúpido, é certo, para mim que tenho a mente lavrada pelo Séc. XX) Egas Mozin ter enfeitado o seu pescoço com uma corda levando a si e a família para o rei da Castela dispor da sua vida. Existiam homens de palavras e a palavra valia ouro, mas hoje, sem assinatura num papel, testemunhas, advogados e, no melhor dos casos, apenas peritos em caligrafia.

A anomalia que habita-nos a mente e faz-nos o que somos foi gerada por milhões de hipócritas que passaram por este planeta antes de nós, e como nós não rejeitamos o errado, apenas o aperfeiçoamos para parecer menos errado e dispomos dele para o nosso fim, possivelmente não há em todo o universo ser algum que se bate connosco em termos de malícia e malvadez de espírito… se até mesmo a Deus conseguimos levar a palma.

Por exemplo, imaginemos um Bom Samaritano do Séc. XX.

Estava um judeu espancado, à beira da morte e, igualmente, à beira da estrada. Passava por ali um palestino (vamos actualizar os factos), ao ver um homem no chão estirado e imóvel, desceu da sua carripana e aproximou-se para ver se os bandidos não tinham deixado nada que se aproveitasse. Porém, ao chegar perto reconheceu que tinha ali um judeu, povo que desde a Bíblia humilhava o seu e que agora está constantemente a criar-lhe problemas por causa da Faixa de Gaza, então enalteceu-se, o seu coração rejubilou de alegria (se não for redundante), iria ajudar um homem que sempre o desprezava, ia fazer com que ele nunca voltasse a desprezar ninguém. A cena até evocava uma criança judia a ajudar Hitler, já todo velhinho, a atravessar a estrada. Oh! Que comovente! Então, o nosso palestino volta para a sua carripana e… vrrrrum!… protch!... espalma com a roda a cabeça do judeu.

Conclusão: os samaritanos de hoje não são nada bons, mete-se com um e está-se tramado. E quem é o culpado? A xenofobia, apesar de diferente maneira, marca qualquer homem. O estranho sempre é visto como um ídolo, uma divindade, um demónio ou uma merda. No entanto, as sociedades, mais complexas, dão hoje mais oportunidades para de curar desse mal, mas infelizmente temos muitos séculos de segregação por cima que deixam sementes no inconsciente e que despoleta de quando em quando, variando ocasiões, o nosso senso xenófobo. Mas, voltando à questão inicial, quando fala um samaritano de hoje, conseguimos rasgar o peito para lhe entregar o coração. Temo-lhos vários, encabeçando governos, encabeçando congregações religiosas, encabeçando seitas, escrevendo livros e dando palestras que prometem mundos e fundos, temo-lhos a habitar o mesmo bairro, o nosso vizinho de lado, temo-lhos debaixo do mesmo tecto – quando temos um tecto – e temo-lhos na mesma barraca, ou a partilhar o nosso caixote… e… somo-lhos. Somos hipócritas, com medo de palavra, mas bons samaritanos.

Mas será por isso que o mundo pára? Ou que devemos nós parar se o mundo não o faz por nossa causa?

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. III


Na danca dos loucos


No entanto, pergunto a mim mesmo: quem são o que afinal estão na razão? São o que apodam os outros de louco? Ou os que aceitam o apodo? Enfim, se formos ver bem, o homem geralmente oferece o que precisa. Entretanto, na sua totalidade os homem podem ser assim classificados:

– loucos que se julgam loucos e são loucos.

– loucos que se julgam sãos e são loucos.

– sãos que se julgam loucos e não os são.

e a categoria especial:

– loucos que se julgam loucos e não os são.

Do último grupo prefiro distância, dos três primeiro, não sei dizer qual é o melhor. Mas homens, como sempre os conheci loucos, não sei se tinha nervos para aturar algum são, realmente são, e que, para o cúmulo se julga são.

Ninguém é perfeito, diz o cliché, mas ninguém gosta de se dizer imperfeito ou mesmo de se sentir – a não ser, é claro, quando comete um erro crasso e não tem ninguém em quem jogar a culpa. E atitude destas é loucura ou sabedoria?

Também eu pensava que Hitler era louco, até tentei ler o Mein Kampf para ver se tinha laivos de filosofia e inteligência como Voltaire ou Erasmus, e, por acaso, em muitas páginas, tinha, mas não consegui ler a obra toda, porque ainda dentro dela me convenci de que não era Hitler o verdadeiro louco, mas aqueles que o liam, ouviam e viam nele uma espécie de Messias com uma missão divina e glorificadora, antes porque o livro tinha pataratas imensas.

O que é certo porém é que na dança de loucos mesmo que seja a sapiência a marcar o compasso dança-se à loucura.

Por que será que os animais não enlouquecem? Ou enlouquecem? Ouvi falar de vacas loucas, mas não percebi qual foi o padrão usado pelo psicólogo que assim as classificou para o fazer. Um vez uma vara ficou louca e atirou-se ao mar, disseram que fora possessa por uma legião de demónios a mando de Cristo – que crueldade!, estivesse ali a sociedade protectora de animais ou algo no género, o gajo ver-se-ia numa camisa de onze varas. Percebe-se que essa vara tenha ficado mesmo louca, porque por (e em) princípio porcos não nadam, chafurdam na lama, e nem saltam de precipícios simplesmente porque não saltam. Que os terá feito saltar então? A consciência, supostamente. Quando os demónios lhes entraram no cérebro ou na alma, ganharam a consciência, e ao sentirem o peso dessa consciência, sentiram-se antinaturais, e resolveram saltar, optando pelo suicídio. Porém, como a ciência não acredita em demónios, o que fez que as vacas tenham ficado loucas? Será que é porque lhes põem a ouvir Mozart porque estimula a produção de leite? Será que é porque em vez de a deixarem escolher o seu touro escolhem por ela um touro? Será que é porque em vez de ela dar a mamar naturalmente – obtendo o prazer freudiano desse facto – põem-lhe nas tetas mamadeiras? Alguém de certeza sabe.

Se até as vacas, descerebradas segundo se diz, conseguimos deixar loucos, imaginem o que não fazemos aos nossos semelhantes! Algures num ponto da pré-história o homem ficou louco, se calhar foi mesmo quando despertou a sua consciência, ou foi quando Adão comeu Adão maçã, e o resto foi simplesmente transmissão de vírus através de diversos factores como a educação e a socialização.

Não simplificamos nada, em vez disso conotamos a simplicidade à pobreza, pobreza criativa, pobreza de espírito ou pobreza de qualquer outro tipo. Quanto mais complicados, mais gostamos. Deus deu duas tábuas de dez leis a Moisés – embora Mel Brooks tenha dito que foram três tábuas de quinze –, apenas dez, mas depois resolveu meter mais regras a observar. Hamurabi tinha outras tantas leis para cumprir, e a sua sociedade, pode-se dizer, vivia equilibrada, hoje temos milhentas vezes mais leis do que Hamurabi, mas a nossa sociedade é a mais complicada e desequilibrada que existe. Ora digam lá se isso não é loucura. Por quê muito para complicar quando poucas podiam resolver tudo? Será que porque pouco não parece ser grandioso?

A grandiosidade é o nosso maior problema. É por sua causa que os homens se dividem e estabelecem classificações. Grupos julgando-se melhores que grupos, sistemas e subsistemas de aproximação e afastamento, indivíduos, famílias, classes, castas, clãs, tribos, etnias, raça, nacionalidade, cor, continentalidade, crença e só por fim a humanidade. E partindo do círculo menor, o indivíduo até chegar a humanidade, as igualdades reduzem-se abismalmente de tal forma que a humanidade parece não existir, embora esteja em voga agora o conceito globalização.

Quando começou tudo? Vai mesmo acabar neste século XX? Enquanto isso deve-se agir em conformidade ou à rebeldia? Loucos são os que remam contra a maré – loucos, loucos e loucos –, mas loucos também são o que se deixam arrastar sem contestar – loucos, sãos, mas loucos.

Qual é saída a escolher neste nosso tempo?

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. II


O SENSO DE JULGAR


Não julguem para não serem julgados, disse uma vez o mais sábio homem que alguma vez reportou a história.

Que validade tem as opiniões humanas sobre assuntos alheios? Que validade tinha a opinião dos missionários quando acharam que os africanos só seriam salvos se abandonassem os seus cultos para abraçarem os deles?

Todos pretendem ter a capacidade de julgar, todos se sentem com o senso da justiça – coisa que não existe – mas ninguém nota que sabe julgar tão bem como sabe voar.

O homem criou a justiça para poder julgar injustamente em tranquilidade.

A constituição, os direitos humanos, a Convenção de Genebra, só servem no papel em provavelmente daqui a uns bons pares de anos, servirão de contos para adormecer crianças.

Os homens com dedo na testa sabem que a justiça é uma fantasia sem a qual os homens sem dedos na testa – incluindo os mutilados – não conseguem. Hoje não há, quer dizer, há sim, mas em minoria, homens que crêem na justiça, mas, apesar disso, continuam a pedi-la. Quem entende o homem?

Os advogados, os juízes, os juristas, e toda essa cambada, só defendem o salário, não se preocupam em estabelecer a justiça, mas ganhar as causas, e se não defendem os pobres, usando pesos e medidas diferenciadas, é porque ganha-se mais a não condenar ou deixar serem condenados os ricos. Se mesmo os grevistas pobres furam greves porque se sentem mais a ganhar com os patrões estando do lado deles do que apoiando os colegas que lutam por um salário mais justo para eles, inclusive, não se vai perceber o acto dos supostos defensores da justiça? Não confundir perceber com compreender.

Quando um político discursa gaba a implacabilidade do governo a fazer justiça, implacabilidade que não garante a imparcialidade, mas granjeia assim confiança, confiança que traz dinheiro, dinheiro que traz injustiça, injustiça que pede pela Justiça, pedido que cria sistemas, sistemas que geram políticos, políticos que falam de Justiça, Justiça que não existe.

Justiça! Bela patarata! A justiça, a que temos a disfarçar-se da verdadeira, é uma ladra, rouba a privacidade, rouba a individualidade, cega a Razão. Desde tempos imemoráveis que se fala dessa fantoche. Dizem até que é cega, ou, que tem olhos vendados, e que anda com uma balança na mão esquerda, para pesar os actos humanos, e uma espada na direita para os castigar. Cega!, nem admiro que a pesagem nunca esteja certa.

A figura que mais se ajusta à justiça é como desenhou um cartonista: uma velha cansada com uma balança a qual falta um prato, uma espada enferrujada e a venda levantada de um dos olhos. Ela, em todo o caso, se fosse verdadeira, está já reformada, se em tempos idos os homens agiam conforme a sua vontade, hoje é ela que se submete ao homem; primeiro, senhora, agora, escrava.

A justiça é um defeito com que o homem vive; criou-o há incontáveis eras e tanto a ele se acostumou que já pode viver com a sua ausência. Mas, mesmo na definição tosca da actual justiça, o que é ela?

Um juiz que condena o próprio filho é mais justo do que aquele que iliba o seu mesmo o sabendo culpado?

O juiz que condena um filho é um insano, pelo menos para mim, porque mal por pior venha o menor. E sei que quem ama é insano, portanto, com um silogismo sofístico podíamos concluir que um juiz que condena o filho fá-lo porque o ama, e logo é justo, ou seja, quem ama é justo. Logo, a justiça encontra-se no amor. Mas, para derrubar o próprio raciocínio, simplesmente temos que pensar que maior insano é quem ama o que não existe, e logo se a justiça não existe o juiz não pode ser justo e não sendo justo, não ama o filho e nem podemos conectar ao amor a justiça.

Ou vejamos esta outra ilustração: um pai que sabe que o filho será a sua desgraça e mata-o para enganar o destino é mais injusto (ou louco) do que aquele que ajuda o seu para que este venha a matá-lo? Laio era cruel quando quis desfazer-se de Édipo? Ou era louco Príamo por ter condenado o bebé Paris? E Hitler… era louco?

Julgue quem saiba, eu copio o Pilatos.

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS


Por exemplo, quem sabe se Homero, quando escrevia Ilíada e Odisseia, acreditava que escrevia verdades sob a direcção de uma inspiração divina, como os autores da Bíblia, ou então que escrevia apenas um romance, quando Hesíodo afirmava que também as musas mentem? Quem sabe se foram os homens que depois acharam que Homero escrevera verdades? Ou as verdadeiras verdades por ele escritas é que depois foram mitificadas? Homero escreveu do seu cérebro ou transpôs para o papel o que os outros diziam?

Devemos aceitar fervorosamente todas as verdades porque há como prova quase uma população mundial que as aceitam, ou devemos pensar nelas e rejeitá-las se assim dever ser?, eis a questão.

 

SOMOS LIVRES OU PRISIONEIROS

A sociedade concede o desejo de ser especial; conceituosamente, a essência de viver como ser saudável sempre é e será a séria preocupação assente no senso. Tenso, penso que simplesmente é difícil ser o ser social que o cérebro nosso sonha, e saber sentir o sabor que suaviza a seriedade de sermos servos de conceitos sociais e concede na existência a fragrância da saúde cerebral, independência e certo prócere. Mas está-se sempre indeciso sobre o que é preciso, sabendo que o nosso consórcio solicita muito siso e pouco riso, e eu não friso a causa disso.

Quem pensa que deve viver como o mundo o quer tem na vida a melodia doentia do prisioneiro. Eu penso que se deve ser o que se é, não o que o mundo quer que se seja – eu seria o que sou, não o que penso que sou, nem o que querem que seja – mas conhecer as balizas, onde cessam as minhas, onde nascem os doutros e onde comuns eles são, e a cadência nascerá da sua não transposição.

Sou eu um ser feito, não sou perfeito, mas perfeitamente imperfeito, não feito defeitos, mas cercado de preceitos em que usando conceitos colho preconceitos, criados por mim, emprestados ou impostos, aceitados ou rejeitados, mas fazendo-me o ser. Há em mim séries de assonâncias, consonâncias, dissonâncias e até mesmo ressonâncias, mas tento ser sem ânsias, cultivando a paciência, pois quem mais contra o ritmo dança mais cedo se cansa. 

Com esperança penso na mudança, mas com pouca confiança, pois que ser é estar na lâminada da lança que a sociedade afia – e ciladas que entrança com imposições de regras que a uns cansam e a outros amansam – e nem se desconta que estamos na sua ponta, e de maneira tonta castiga os imprudentes que não evitam a alhada de contender.

Mas é preciso fugir de pontas, descer, subir, ficar no meio, meditar, pois o mundo está mal, preparar novas formas de viver, computar o mal das sociedades, reparar o ideais entortados, separar o essencial dos acessórios, amparar vontades de utopias – quando promovem diferenças – disparar sonhos contra o mal, decidir com escolhas altruístas para presidir a uma boa vida para todos.

A vida reside no espectro. O que é o mundo senão um ícone de sombras? São só sombras que trespassam o nosso sonho e dá-nos a impressão de termos escapado da caverna de Platão.

Eu sei que muitos não me vão entender e vão querer julgar-me. 

sexta-feira, 15 de Maio de 2009

INTRODUÇÃO À PSEUDOFILOSOFIA



Eu li Erasmus tinha praí 16 a 17 anos, impressionou-me bastante, e posso até dizer que mudou a minha forma de ver as coisas. Nessa mesma época li Voltaire, começando por Cândido passando por numeros contos. 

Erasmus escreveu Elogio da Loucura, Voltaire, Elogio da Razão, eu pensava que os dois iam entrar em choque, e como Voltaire era muito por mim respeitado, gostava mesmo que me desse um outro ponto de vista, mas não é que um e outro, falando de coisas antagónicas, estavam em sintonia. É certo que Voltaire é posterior a Erasmus.

Ainda, nessa mesma época, continuando a minha busca por um ponto de vista antitético, e fascinado, confesso, por filósofos, filosofias e filosofices, fui parar ao Pensamento de Pascal. Foi o cúmulo, tinham-me trabalhado bem a cabeça esses três, sem contar com outos que andava lendo nessa altura, e que depois vou identificar a medida que vou fazendo este blog.

O resultado do bulício mental que processava nos meus pobres miolos resolveram-se à caneta e papel, e vou aqui passar esses pensamentos. 

Quem já leu Erasmus vai perceber a sua influência na linha como apresentei estes pensamentos. E... mais, nessa altura, estava a ler um livro chamado Questão Coimbrã, pelo que em muitas partes senti muita vontade de escrever em rimas... e fi-lo, com bons e maus resultados.

O mais engraçado, para mim, pelo menos, é que descobri os textos que vou depois apresentar entre os meus montes de papéis, e ao relê-los, vi que apesar de serem ideias nascidas ou postas por autores diversos na mente de um puto, a minha forma de pensar não mudou praticamente nada, com a única diferença de que onde antes eu tinha ingenuidade hoje tenho... se calhar, cinismo.

Vou terminar aqui este post, começando por apresentar as reflexões do rapaz que eu era no próximo... só vos peço, não batam muito no ceguinho.